Thursday, April 29, 2010

ne bis in idem


o mito morreu e quem o matou fui eu.

foi isto.



estou para ver se tem mais do que uma vida como os gatos ou se vou voltar a saber escrever.

i hate goodbyes.

i wish it would rain champagne right now.

Friday, February 5, 2010

salvation



em silêncio podes mandar-me calar grita o meu nome em espirais que nunca ouvi grita com violência porque também gosto e quando me tiras as lágrimas ao pontapé mas grita o meu nome em espirais porque nunca ouvi e quero ouvir eat me, drink me, make me grow cala-me assim com isto que eu deixo eu deixo sempre nem que me ponhas mais do que um dedo na boca e assim eu calo-me ou me beijas e me sugas a vida que ainda há e assim eu calo-me também mas hoje cala-me as tristezas e as confusões e as ansiedades diz-me que não faz mal o monopólio agora ser redondo e sem notas cala-me a força que já não há com um dedo enfiado no meu coração deixava que o pusesses ia saber-me a invasão perfeita cala-me já e põe-me a pele do direito para a tua chegada cala-me todos os queixumes e os treze anos que se apoderam de mim hoje apaga este giz negro com o teu corpo e sossega-me e vive-me todas as noites que eu deixo e só espero que me repitas e me deixes ficar no teu leito eu e as minhas veias no teu leito como se o teu leito já fosse delas como se a corrente delas só de ti dependesse cala-me com o teu corpo ele diz-me sempre que vai tudo ficar bem que antes não estava que um dia pode voltar a não estar que os vícios são uma merda que os joelhos se esfolam e ficam mais bonitos que o futuro é não saber nada desse passado mas ainda assim saber-te a ti e que a tristeza é fonte recorrente dos mais tristes poemas de insónias e das noites mais sozinhas dos que são selvagens no coração mas diz-me por favor diz-me que ficará tudo bem que nos vamos ter e voltar a ter e que não vais deixar a minha boca secar.

Tuesday, January 5, 2010

Lhasa de Sela



li algures que a Lhasa de Sela queria ser um mito cantado.
diz-se que este é um canto de mitos, às vezes exagerados e demasiado fabricados, outras vezes dos involuntários que influenciam o nosso andar, que nascem por urgência e por sobrevivência, a explicar o sentido das gotas da chuva no vidro, têm de estar entre nós por aquilo que têm nas veias e que tem imperativamente de vir ver o mundo.
das mágoas mais graves e do canto mais sereno, menina nómada, demasiado jovem para nos ter deixado o legado. os legados não se deviam deixar aos trinta e sete.
demasiado jovem. dorida na profundidade de cada sílaba que entoava. ia buscá-la aquele sítio. mais à esquerda, isso. magoava, doía, e acalmava no fim a fazer lembrar o rouxinol do oscar wilde que durante noites seguidas cantou o amor que a morte não leva com espinhos a ferirem-lhe o coração.
ficará como um mito dos mais bonitos, dos reais dos que vivem connosco e passaremos a outros, aos que ainda a sua voz não tinha tocado ou chegado. os mitos têm que ser partilhados.




Con toda palabra
Con toda sonrisa
Con toda mirada
Con toda caricia

Me acerco al agua
Bebiendo tu beso
La luz de tu cara
La luz de tu cuerpo

Es ruego el quererte
Es canto de mudo
Mirada de ciego
Secreto desnudo

Me entrego a tus brazos
Con miedo y con calma
Y un ruego en la boca
Y un ruego en el alma

Saturday, January 2, 2010

a elene usdin tropeçou no cohen esta noite.

rendez-vous improváveis





A heavy burden lifted from my soul
I learned that love was out of my control

It's written on the walls of this hotel
You go to heaven once you've been to hell


Elene Usdin


Thursday, December 31, 2009

come january

I want you more,
Than anyone ever wanted anyone before



a distância de um palmo foi mesmo suficiente para perder o chão ainda na introdução de dois mil e nove,

e tenho a certeza a bater-me à porta. insistente, fala alto e muito segura de si quando em tempos poucas certezas tinha na palma da mão para oferecer.

vem aí um ano zero, sem resoluções, depois de me teres oferecido um ano-mundo. daqueles sem números pares ou ímpares, um ano-mundo que não pode ser reconduzido a um nove no fim, porque afinal tratou-se sim de um mundo inteiro nascido depois de uma praça chuvosa. um mundo reciclado ou não reciclado, que se lixe copenhaga, mas que me abriu o peito como se fosse a primeira vez que respirasse sem ajuda, um ano já sem cheiros a mofo do passado que já não tenho químicos a oferecer-me paz induzida, um ano de amor que veio nos teus olhos e a profundidade que neles vive, que trouxe um pé descalço enrolado numa corda vermelha, imprevisível e marginal, sem regras escritas que o guiem, um ano-mundo que te cabe no peito, que contagiou o meu. e a corda vem com ele agora.

borro o papel e procuro as palavras. inútil é isso que faço, procurar-te em palavras que não chegam nem nos vestem das cores que somos por dentro, tu e eu. só contigo é que não me imito, diz o cohen. porque só contigo as palavras não precisam de floreados nem de vestes finas ou passas para saltarem para um novo ano zero. só contigo as palavras são foguetes de álcool e pólvora e sangue e amor e polaroids e paz da verdadeira que apertamos nas mãos que se confundem. não crescem, não fogem, são nossas e pertencem ao nosso ano e a um janeiro que me acordou a pele dormente, me fez nascer e me faz continuar a amar-te num novo janeiro daqui a umas horas.


I am what you are and not but me,
So hold me closer and don't ever let me
go

Tuesday, December 29, 2009

unmade beds

as polaroids são ele, a parede dele e dois mil e nove.
e amor. muito amor.


parece que há filmes que tocam mesmo antes de serem vistos, aos dois minutos e pouco de trailer apenas. expectativa alta? banda sonora da boa? recordações demasiado fortes para tantos dias? clichés que encaixam e se colam em fila na parede laranja? rasgos de memória instantânea que me contagiaste? não sei, mas tenho de o ver. as polaroids podem ser para sempre, essas. e eu tenho uma que só vê o mundo em sépia.

i've got the best unmade-bed-polaroid ever.

Monday, December 28, 2009

i blame coco

a filha do sting anda por aqui.

Thursday, December 3, 2009

pardon my enthusiasm

Tim Burton no MoMA










até abril para quem tiver o privilégio de dar um pulo dos bons a Manhattan. batam os calcanhares todos.
é a maior retrospectiva já feita, arte, muita, mais de 700 obras, esculturas, pinturas, tesouras, maquetes, esqueletos, sensibilidade a preto e branco ou explosão de cores, fotografias, árvores esculpidas, esboços, alfinetes, noivas, animações, rimas, making offs...
oh céus, tremo de pensar no mundo dele num chão para todos.




o zé e o caddilac

Zé! - b Fachada from Vasco Monteiro on Vimeo.



vou dormir com isto na cabeça em loop.
é melhor que trautear a popota e faz-me rir. cá por casa absorvi uns olhares estranhos por estar a cantar

chamo-me zé
vim praqui a pé
e agora tenho um cadillac

Thursday, November 26, 2009

first aid kit

nunca fui boa para resumos, prendiam-me os dedos

ora,
depois de uma suposta e alarmista gripe a, que não o foi, tamiflu e isolamentos, máscaras pouco fashionistas e predinhas dele, passou a febre e apanhou-me a objectiva do Alfaiate Lisboeta, lame publicity stunt, admito sem pudor.
encontrei-me com o Coppola e respectivas meias amarelas depois do Tetro, seguiu-se uma digestão ainda que tardia do Antichrist, de Zoetrope na Culturgest, onde pelos vistos estava o David Bowie que me fugiu entre os dedos, dos Depeche Mode e dores no pescoço, do Galopim no Incógnito, é o regresso da chuva, dos casacos pesados que atrapalham, das franjas desalinhadas e das noites em que as mantas sabem ao melhor reencontro do ano. quem amua como gente grande é a vespa.
ontem lá estive nos prémios furados da antena 3 com noiserv, sean riley e pontos negros, falo do que gosto, vá, resolvi vir espreitar se o mito ainda tinha algum batimento cardíaco que se pudesse aproveitar.

descobri mais umas manas.
se sou boa em algo, é a descobrir manas talentosas.






parece que ainda se vai respirando por aqui. mais pó menos pó.

Friday, October 30, 2009

veludo negro ou só aguarrás

quando era pequena e tinha dores de cabeça ou estava ansiosa demais, lembro-me de a mãe me dizer:
Vai-te deitar no escuro, de olhos fechados em silêncio e pensa em veludo negro. Tudo negro, e não penses em mais nada, em mais nenhuma cor, vais ver que passa.
apercebi-me hoje que ainda o faço inconscientemente, como uma regra esquecida de infância que nunca me certifiquei que resultava. gostava do ritual, de cheirar ao misticismo dos sete anos. misticismo de mãe, crença ingénua da miuda. hoje voltei a fazê-lo com saudade. silêncio. cama. escuro. olhos fechados. veludo negro. sorri com as recordações e com a tentativa de resultar, como se o preto fosse ainda preto e já não tantas vezes tingido e pintado em mil direcções para fugir ao medo.
as dores de cabeça depois dos vinte não passam numa noite com crenças monocromáticas, nem com silêncios em quartos escuros. as pálpebras tendem a cerrar com demasiada força e a prender o grito abafado, e o veludo esse irrita a vista e ameaça rasgar de uma vez. podia escrever um manifesto parvo qualquer para acabar com o mito, o veludo negro cheira mal, morra o veludo negro, morra pim. apercebo-me da parvoíce que seria escrevê-lo, e mantenho o mito intacto, como se quer.
corpos que dançam forte e que caem forte é sempre um bom caminho. gosto de me vidrar neles. qual veludo qual quê. a cabeça gosta dos que dançam e caem forte, e um armazém pode ser sempre o princípio do mundo e o fim da ingenuidade.

Saturday, September 26, 2009

paper clips and crayons in my bed

Mallu Magalhães e Marcelo Camelo



ela tem dezassesis, ele tem trinta e apaixonaram-se.
ela é a estranha menina prodígio do folk brasileiro, que canta johnny cash e dylan, ele tem barba e dispensa apresentações. quis conhecê-la e fez esta música.
adormeço com eles hoje, há coisas em que acredito.
uma ou duas por dia vão chegando.




Sunday, September 20, 2009

pós

no estado pós-ressaca, pós-stress, pós-incessante-bater de calcanhares, pós-última oral e curso acabado, pós-abraços e parabéns, pós-morte do patrick swayze que me vai fazer rever hoje o dirty dancing pela enésima vez e chorar porque dizem que faz bem, pós-dores-de-cabeça, pós-bife argentino e tinto, a terminar com a playlist alcoolizada de amor no chão da sala, fui ver esta menina ontem ao museu do chiado, porque tenho um amor que me proporciona estas coisas mesmo não estando cá.

chama-se lau nau.
ou laura naukkarinen
vem da finlândia com brinquedos e voz doce. intervala com um inglês manhoso que a torna querida, fala de mapas que nos levam onde não queremos bem ir, da mulher que se apaixona pela morte e de canções de embalar com cavalos. quase senti um floco de neve no nariz e o cheiro a chá quente.




deixei de ouvir o coração a bater.

Thursday, September 10, 2009

heartache and good intentions





a vida é hostil logo pela manhã
Pedro Paixão

Tuesday, September 8, 2009

heaven or las vegas

ora
há um curso para acabar
um blog com tendências suicidas mas que teimoso se vai arrastando já sem escalpe ( e lembrei-me dos basterds)
esses bem que podiam ajudá-lo a sair de cena como o jornal nacional
o mito morria com menos polémica , sem demissões colectivas
sem missa de sétimo dia
mas com a classe do brad pitt de bigode pelo braço
mesmo que não seja nenhuma masterpiece
fechava-se a cortina sem remorços
já está meio esburacada mesmo
e o quarteto nunca mais reabriu, por falar em cortinas
que tinham música
e as ausências e mais ausências
outra vez as ausências
resfriam o sangue mas não o param
é como a marcha dos pinguins-imperador
não param e são inatas de tão bonitas
e um cartão retido no multibanco e burocracias até às três
um curso para acabar, já disse?
nervoso já não miudinho
gigante até dá em lágrima que já se julga campeã
o tique incessante dos dedos que me faltam
para a mão ser mão
uma semana de saudades
uma cadeira só, uma só, a pôr-me no limbo emocional
outra vez
épocas especiais alarmistas
apontamentos sublinhados com a quarta caneta
e o sol aí nasceu às seis e vinte, amor
cafeína a mais
calma a menos
e um curso para acabar
insónias e ausências
latitude -71° -21' 0'
longitude -18° 53' 0'
cinco horas a menos
de ti meu amor
qualquer dia o tigrese vai para os prazeres
parece que não sai de moda, chatice e talvez já não me fique bem
será que alguma vez ficou?
a balança essa vá lá que não chateia
e o meu jardim também não
mas o que faltava a este canto que sonha com quedas do primeiro andar
era ser teimosamente invadido por comentários com spam tailandês
do refinado e criativo
e ter de apagá-los um a um
quando, aqui entre nós que ninguém nos ouve,
até me estavam a encher o ego logístico e já iam a caminho dos trinta
mas
uma adulação repetida acabará inevitavelmente por tornar-se insatisfatória, e portanto ferirá como uma ofensa, diz o saramago.
ora
estou bem.
estou bem.
estou bem.

Saturday, August 15, 2009

ponta delgada - toronto. em voo.

põe o dedo assim que a espuma já não sobe, amor.
acordei com essa frase, o postal do roy lichenstein sobre a mesa e os lábios fartos de cerveja da noite anterior e estupidamente carentes dos teus.
em voo. leio. está em voo, chega ao terminal 3 mais logo. serei a pior versão do big brother do espaço aéreo? em voo. em voo. controlo o estado do teu coração e do meu à distância e tenho uma visão turva da nossa corda vermelha pelos ares. em voo. acredito que és um vaivém como o quadro no passos manuel.
vaivém. és um vaivém, meu amor, mas só a segunda sílaba me conforta. a primeira lembra-me a todo o tempo a falta que me fazes. só com as duas juntas posso dar valor ao teu sorriso, a cada ritual nosso, a cada beijo como se fosse o primeiro na praça chuvosa. vaivém.
as ausências com calor são menos toleráveis porque durante a noite o pé teima em procurar o último intocável recanto fresco do lençol, nessa busca sonolenta chateia-se por não encontrar o teu. assim como me chateio por ainda não ter comido figos neste querido mês de agosto, logo eu que não falo muito em fruta.
o amola tesouras tem andado por aí, oiço-o do meu canto e sei que vai chover.
assim como sei que voltas para mim não tarda.






pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

pergunta-me
se te voltarei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo a folha rasgada
na minha mão descrente

qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

Monday, July 27, 2009

i remember

curiosidade matutina



gostava de saber como ficaram estes dois.


I remember it well
The first time that I saw
Your head around the door
'Cause mine stopped working

I remember it well
There was wet in your hair
I was stood in the stairs
And time stopped moving

Sunday, July 19, 2009

o teu dia

porque ainda é o teu dia
ouvi hoje numa mesa cheia de amor a história desse dezanove de julho em que pediam licença aos camaradas porque já tardavas e o mundo te queria.

porque ainda é o teu dia
vi-te e amei-te mais porque estavas dentro dos risos, dos pratos de mão em mão, do carinho, das borras de café, do bolo de ananás, do palácio à distância, das fotografias coloniais e nos vestidos dos anos sessenta, dos amores que começam em meses, duram vidas e mudam o coração boémio de um homem.

porque ainda é o teu dia
lembro o cuidado com que manuseias a tua memorabilia do ryden, em segundos em que mais nada importa, de respiração suspensa, dedos cautelosos e sorriso de miúdo na mais bonita das partilhas.


porque ainda é o teu dia
e humilde, detestas a atenção que sobre ti recai, e te põe ainda mais bonito e inocente, e faz-me ver à distância o consenso que é gostar de ti, o quanto por todos és querido, sendo que as escadas são minhas e só minhas.

porque ainda é o teu dia
beijo-te e volto a beijar-te agora contigo em número par com o desejo de mais dias teus para te ver em tanto amor, beijo-te no fim do teu dia com a certeza de que os beijos ainda podem matar. obrigada pelo teu dia.



Monday, July 13, 2009

o meu crush pela alison

já andou mais esquecido.


The Dead Weather - Treat Me Like Your Mother


You can get a lot farther with a kind word and a gun than a kind word alone.

já dizia o al capone.

Thursday, June 25, 2009

coração-de-leão?



depois das manas cocorosie na melhor loucura de mãos coladas com o mais terrível dos anjos, depois de direito-internacionalomerdoso-privado em doses não recomendadas que de muito pouco valeram hoje, vem esta falar do ouro do midas, de chazinhos e banquetes coloridos com o lewis caroll, de enrijecer o coração e tentar acalmar-me e cantar com ela em vez de pontapear com gosto o código civil.

yes, florence.

Tuesday, June 16, 2009

bairro alto

ou o rapaz que aos trinta e três anos arranjou uma vespa verde







ele sai tarde, voa para longe e acorda cedo.
não consegue estar muito tempo sozinho entre paredes e prefere sempre as coxias. as paredes prendem-lhe as ânsias, mesmo que sejam com o mais bonito papel de parede.
sai tarde, voa para longe e acorda cedo. é querido por todos e não se esforça.
és desses. dos que nasceram com esse encanto e que mesmo ao fim de três décadas não são conscientes de o terem.
apanha a roupa, faz a mala, desliga o rádio, sai tarde e voa para longe.
o menino de três anos que mais parecem seis pela desenvoltura com que fala pelo bairro e se estica na varanda para ver tudo, gosta dele. gosta de o ver passar de carro, de vespa e a pé, e chamá-lo de amigo de sorriso rasgado, olhos pestanudos e ainda de fralda.
o menino que não sei o nome porque só lhe pergunto se já lanchou, observa-nos e volta a chamar-te de amigo. insiste mais uma vez - amigo. dás-lhe o teu sorriso mais bonito e é impossivel não achar verdadeiramente que és amigo dele. eu acredito. chego mesmo a acreditar que ele tem saudades tuas e passa a tarde a olhar para o terceiro andar do número cinco quando te ausentas.
gostava de saber o nome delas também. das velhotas do bairro, mas falta-me a tua simpatia. elas mereciam ser tratadas pelo nome e não só por velhotas, nem que seja pelos olhares ora ternurentos ora saudosistas-atrevidos que te lançam. dás-lhes atenção e falas do cabelo delas, da chuva que teima, e enches-lhes o dia. ai se eu fosse mais nova, borracho, leva-me contigo, repetem baixinho quando te afastas.
o olhar da que se senta no degrau a cantar toca-me mais. preferia ouvi-la cantar mais tempo do que à fadista em frente que nos é impingida. olha-te de cima a baixo, olha a miúda que vai contigo de mão dada. mais nova, a cachopa, pensa ela. será que nos ouve pela janela que nos esquecemos de fechar? não sei o que pensa mas sorri e gosta de ti. essas coisas não se disfarçam. muito menos uma velhota que canta a vida na solidão de um degrau.
fácil seria descrever o mundo feminino na tua área circundante da calçada que te sorri, mas por lá anda o senhor da mercearia que gosta de fazer uma piada quando te vê e te entrega o correio, ao da drogaria que me ofereceu pilhas, ao rapaz esquisito dos truques de magia que anda sozinho e por toda a parte com um baralho de cartas, ao que fala de futebol, nos convida para a bica e te pergunta se vais voar e já me estende a mão como se me visse já como parte integrante de ti, os turistas que acolhes e que ficam assim a conhecer o melhor do país num sinal de uma bochecha que os recebe, também eles contagiaste . és desses.
o bairro alto é a tua rua.
tudo o resto em redor ruiu e perdeu o nome.

o bairro alto é o teu sorriso que dele não sai.
nem quando dele sais tarde e voas para longe.

Sunday, June 14, 2009

gimme sympathy



quem canta de manhã, chora à noite - dizia a minha mãe.

Friday, June 5, 2009

pretty sadistic bill

Bill: Do you find me sadistic? You know, Kiddo, I'd like to believe that you're aware enough even now to know that there's nothing sadistic in my actions. At this moment, this is me at my most masochistic.





Kung Fu and Kill Bill star David Carradine, who was found dead in a Bangkok hotel room yesterday, might have died from a botched attempt at auto-erotic asphyxiation, Thai police said today.

“There was a rope tied around his neck and another rope tied to his genitals, and the two ropes were tied together and they hung in the closet,” Lieutenant General Worapong Siewpreecha told reporters.


do kung fu ao kill bill, o david carradine tinha o je ne sais quoi que me conquistou em miúda.

nunca soube explicar mas acho que estava na confusão que me fazia e na dúvida que sempre me assombrou do é bom-ou-é-mau? achava-me uma mestre a rotular os bons e os maus da ficção, e o caradine e o steven seagal confundiam a mente da miúda cinéfila que oscilava entre o dirty dancing, o jesus cristo superstar e o kung fu ou um qualquer de sábado à tarde em que a justiça e a moral estivessem na ponta do pezinho do steven seagal a abrir o queixo de um qualquer. ( ok, já escrevi um post em que aparece o steven segal. ) gostava de não entender à primeira que estes gajos com ar de sacanas e gozões eram dos bons, mercenários mas dos bons. a dúvida e a revelação andam de mão dada quase sempre e conquistam assim as criancinhas, algumas.

de expressão marcante acompanhou-me em pequena, com a devida admiração foi posto ao lado do resto dos heróis que me faziam almoçar rápido. chamem-me a mais-nova-groupie-de-sempre a ver se me ralo. heróis são heróis. se tiverem piada, forem giros ou trapalhões, ou um pozinho de sacanas a salvar o dia, melhor. do mcgyver ao lucky luke /terrence hill ( este a despertar a mais pueril das paixões platónicas), o carradine estava lá na vertente do bad-ass com classe, sorriso matreiro e falas sábias. mesmo que hoje o ache assim um bocadinho sádico.



Kwai Chang Caine: [quoting] "Change is not only desirable, it is necessary."
Peter Caine: Confucius?
Kwai Chang Caine: Frank Zappa.

Thursday, June 4, 2009

who knows eve


ela escreveu-me um dia a amanhar-me como às entranhas de um peixe da forma mais doce e delicada que se pode fazer



e há noites em que voltam os quinze e volta o texto dela por arrasto terapêutico para me apaziguar.

Monday, May 25, 2009

eu quero eu quero

onde é que eu não vou estar de galochas de 24 a 28 junho?







ainda não é este ano.

um grandessíssimo

FUCK





Glastonburry








Neil Young . Blur
Nick Cave&the Bad Seeds . The Big Pink
Yeah Yeah Yeahs . The Maccabees
Fleet Foxes . Doves
Regina Spektor. Bon Iver
Little Boots . Glasvegas
The Prodigy . Echo And The Bunnymen
Metronomy . Animal Collective
Maximo Park . The Horrors
Bloc Party . The Whip
The Ting Tings . British Sea Power
Friendly Fires . Eagles of Death Metal
White Lies . Franz Ferdinnand
Bat for Lashs . Pete Doherty
Metric . Jarvis Cocker
The Rakes . Gaslight Anthem
Noah And The Whale . Hockey
Passion Pit . Tindersticks
Lisa Hannigan . M. Ward
The Wombats . La Roux
Ladyhawke . Scott Matthews
Peaches . Art Brut

Emmy the Great . Florence and The Machine
VV Brown . The Virgins

Sunday, May 24, 2009

god is an astronaut



handsome furs. não afinal não. ó céu faz chuva em mim. para onde me levas? auto-estrada e cerveja. doimileeoito. baixas de festas de anos. beijos e auto-estrada. leiria. e handsome furs? fade in. esquece. surpresa surpresa. foda-se. deus é um astronauta. pica-pica rápido para apanhar a coxia. a tua coxia. cigarro do concerto. só este. ninguém bebe. teatro miguel franco e copos com cerveja. esgotado. all star project. português do bom. irmão-gótico-do-úria? riffs e head bangers moderados. em sintonia. irlanda. god is an astronaut. frágil e pós-coma. macaquinho no espaço. crescendo. guerra. mãos dadas. corpo em percursão. foguetões. explosões. falhas de respiração. lingua queimada. encore. encore. ouvidos a zumbir. sono. estrada. banco. eco e grito êxtase depois de deus. sata. água. the sound. cantas bem. canta. para a curta. he's so still, silent, motionless. acelera. continua. ama-me assim. pára. queria tanto parar aqui. à porta. beijo. you showed me that silence

Monday, May 18, 2009

i had a dream

intervalei o estudo de dip e resolvi dormir vinte minutos, estrategicamente cronometrados, para recomeçar iluminada e a perceber tudo e mais o que vier.
sonhei que estes, the big pink, super revelação do ano que corre e de quem se vai falando por aí, vinham cá, e eu estava de calções a ouvir esta música em paredes, e só tinha as unhas do pé direito pintadas.
ora daqui não retiro nada de prático e credível para o teste de amanhã.
descobri que os meus sonhos até têm som. e que o meu pé esquerdo é renegado e quer mais atenção.
com dip não sonhei eu. não acordei mais iluminada, mas a cantar.
se for presságio musical, vou fazer força para sonhar com radiohead.
pode ser que crie um culto.


Saturday, May 16, 2009

hope there's someone

jesus cristina do afeganistão, a subida do nível das águas, a luz vermelha que pisca, e finalmente, hegarthy in our hearts.


ao antony,
que com falsetes e uma voz que nos vai até ao âmago me fez esquecer de respirar umas quantas vezes.
a ti, que com meses de antecedência me deste a fé e a certeza que o antony ia passar do chão ao coliseu num ápice e de mãos dadas.



Tuesday, May 12, 2009

swimming pool



your eyes my skin your pool all in



o cloro tem amor e deu-me uma imagem melhor com uma pele mais bonita para substituir a da ludivine sagnier de biquini.

Monday, May 11, 2009

o amor - combate é assim que começa


Olhos de Mongol.




É «aquela empatia que existe quando conheces uma pessoa, estás a falar com ela pela primeira vez e há uma energia no olhar, toda aquela ligação um bocado inexplicável» apoderam-se os Linda Martini, a expressão é do Henry Miller e encaixa que nem lego usado.

Wednesday, May 6, 2009

um fado por dia ai o bem que não me fazia

as gaivotas têm horários. têm dias de trabalho, dias de descanso semanal e dias de crença e má sorte popular a avistar tempestades, no mar, nas ruas e dentro dos trapos que trazemos.
as tuas gaivotas espreitam religiosamente a tua rua. fazem-se ouvir à mesma hora, e fazem-te sorrir a tempo. é um ritual que já não lhes pertence, veio para o nosso canto. onde pouca coisa consegue entrar e perturbar. é a bolha, é a bolha.

Hush
It's okay


juntam-se à vizinha fadista.
gaivotas e fado.
aquela que não sei o nome e às vezes até ofendo, porque o amor faz destas coisas, e o amor no bairro alto é tão mais típico que nos muda e nos faz ofender fadistas.
é ela, a mulher que nos cansa e nos enche as paredes com o mesmo repertório, com a mesma dor incutida do fado-agrada-turistas, com as mesma palmas estrangeiras, que acham em vão que nos riscam o vinil do cohen que pões às escuras a esconder de mim a capa.
é ela que dá notas ao lado, mas que ainda assim e irritantemente nos faz sorrir aos dois em uníssono e tentar calá-la com uma das nossas.
é ela que é constante na nossa história bairrista. por ser testemunha do forte e do infantil do carente e do intenso do amor que não sai e da lágrima que cai com a roupa e do corpo que desmaia antes de ouvir o barco negro atè ao fim. no vento que lança areia nos vidros, na água que canta, no fogo mortiço, no calor do leito, nos bancos vazios, dentro do meu peito, estás sempre comigo.
teima em cantar para nós que não pagámos, que não a queremos. acompanha-nos sem nada em troca. e a viagem, essa é nossa e começa na curva do teu peito.

Dry your eyes


são portas fechadas de segredos beijados nos sinais iguais e frases completadas em jantares no chão. queres fruta? tens de comer fruta.
são estas as portas que se abrem ao fado.
as que do abrir ao fechar levam à urgência de um beijo em três segundos .
unidos numa música que não é a nossa. mãos-de-fada num fado que nos acompanha. vá lá, faz-me dez minutos que depois faço a ti, prometo.
somos os que a ouvem sem a ver, que se riem encaixados como peças de um puzzle que ainda nem foi pensado, e que fingem que se importam por ela interromper a vírgula de um beijo dado já demasiado embebido de sono . já dormes? mas ela ainda canta, e eu ainda te olho, amor.
somos personagens do bairro na mais intimista das casas, no mais perfeito dos abraços, escondidos da calçada de copos partidos e ténis iguais, na mais forte das bolhas, que é teimosa, como tu, como eu.

e o fado é continuar todas as noites.

Soulmate dry your eyes
Cause soulmates never die






Sunday, May 3, 2009

the heart asks pleasure first

o dia todo a ressoar cá dentro
no silêncio demasiado alvo das teclas
a pedir o pé descalço destreinado
trouxe a paz de uma pequena flora
já esquecida na areia
a imagem mais pura
nas teclas mais magoadas
que um dia então dancei






The heart asks pleasure first,
And then excuse from pain.
And then those little anodynes
That deaden suffering.

And then, to go to sleep;
And then, if it should be
The will of its Inquisitor,
The liberty to die.

Emily Dickinson

Wednesday, April 29, 2009

this charming man

nota mental de casal à quarta feira:

. não teimar com ele, quando ele reconhece nick drake em três segundos e meio.
. ser indie é confundir o alvaláxia com os cinemas alvalade, correr e tropeçar só para ver os caracóis do garrel.
. o morrissey-é-gay-o-morrissey-não-é-gay-o-morrissey-é-gay é igual ao levo-te-não-me-levas-levo-te. é o ciclo do eterno retorno e só acaba nos lábios dele.

Tuesday, April 28, 2009

no meu sangue o teu vinho



é bom entrar na madrugada com a case of you da joni mitchell.
se houvesse uma playlist padrão das madrugadas esta estava lá, para encaminhar ou desencaminhar, adormecer ou criar insónias. para os apaixonados é vinho do bom e que dá pouca ressaca.
para os outros, os falsetes dionisianos sempre foram golpes nocturnos baixos que adoram puxar o tapete aos que ouvem ou bebem demais.
já o lilac wine cheira sempre às duas da manhã e madeira a estalar e ninguém sabe porquê.
para os apaixonados é veludo a rasgar e vermelho muito vermelho em peles arrepiadas.
é vinho a correr nas veias, do que não traz ressaca.
vinho mau, vinho bom. do que faz chorar e do que faz amassar a roupa e perder a respiração numa esquina sem luz. passa-se a gostar, aprende-se a beber. o charme e a confiança de quem enche o copo, o encantamento de quem bebe o terceiro gole e quer ser levado por braços de sangue quente.
para os apaixonados o vinho é o sangue e o sangue é o vinho.
sem ressaca pela manhã e a aguentar de pé.




Oh you're in my blood like holy wine
You taste so bitter and so sweet
Oh I could drink a case of you darling
And I would still be on my feet
Oh I would still be on my feet


I remember that time that you told me, you said
Love is touching souls
Surely you touched mine
Cause part of you pours out of me
In these lines from time to time



Monday, April 20, 2009

23

Twenty three magic
If you can change your life



Twenty three seconds
In you I see a chance
Twenty three magic
If you change the name of love


parece-me bem estar de coração cheio e ritmado a começar os vinte e três.

Saturday, April 18, 2009

sequela

ele interrompe e vem ver quanto está o sporting.

love me tender

ele faz-lhe o jantar
ela tem febre nos lençois dele
os olhos dos quadros pairam sobre ela. testemunhas da chuva que não passa destas paredes
ele volta e beija-a. volta para a cozinha
ela enrosca-se mais nos lençois vermelhos
de amor
a felicidade está aqui
e espera por ele

Thursday, April 16, 2009

karate kid

numa rua perto de si.
os meus vícios são quase sempre públicos. e desafinados em passeios molhados.
ainda assim partilho com quem passa.




tragam-me cá a miúda se faz favor.

Monday, April 13, 2009

santiago alquimista - grécia

algo que quase comove.





ligaste-me a meio, mal sabe o úria que serve de elo de país a país, qual moeda única qual quê.
do santiago a meteora.
não hesitei em cantá-la num bar grego onde ninguém me perceberia. onde talvez um velhote grego julgasse conhecer tal melodia mal entoada. a memória oscila a todo o tempo entre o gira-discos hoje já sem agulha porque o amor não a perdoou, e a beleza de pestanas grandes que uma vez teve no colo. mas ainda assim o velho conhece a melodia e deixa-se comover.
talvez achasse mesmo que a rapariga que entrou no bar tinha um déficit de atenção internacional grande demais para se atrever a balbuciar numa língua que não a sua, que não a do harrison.


é esta a devoção de que falo e que me leva a eleger por arrasto um sorriso preferido, aquele que não dás conta de esboçar, aquele que me acordou a carne.
trinco o lábio de baixo à distância, quero tentar perceber se ele existe mesmo quando não o procuras. mesmo quando não dás por ele.
se ainda existo depois de ti.
procuro o fulgor das semanas passadas, o encore perfeito do primeiro degrau das tuas escadas onde voltei para um último beijo apatetado apressado urgente carente e não ensaiado. corri o risco de me achares infantil por prolongar a despedida e voltar para te sentir uma vez mais.
são estes os encores que são sempre escondidos e que nunca são pedidos. os cheios de rubor que pedem ao ouvido para não demorares mais dias. porque o amor verdadeiro espera em sótãos assombrados.
porque o lábio de baixo está cá só para enfeitar.

Wednesday, March 11, 2009

amor em bruto



where are you
my little tornado
my little hurricano

Monday, March 9, 2009

mimetismo de amor com puré de batata

porque o meu coração poisou no Brasil e teima em sair para grandes correrias agora.
porque é das coisas mais bonitas de sempre, esta menina com uma flor. e o Vinicius sabia.

Para uma Menina com uma Flor

Porque você é uma menina com uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino,
o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras.

E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte
eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta,
e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando.
E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena;
é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha
- a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.

E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobretudo porque você é uma menina com uma flor.

Vinicius de Moraes

Sunday, March 8, 2009

uma casa



cinco minutos e trinta e cinco segundos de inércia induzida e de coração apertado.
não mexer.
é beleza que se desfaz sozinha.
não mexer.

Tuesday, February 24, 2009

mole. beauty mark. lunar. sinal.

é urgente aquilo que sai em sílabas dispersas desorganizadas espalhadas no chão numa madrugada de coração na mão porque o peito abriu de vez é urgente dize-lo de olhos fechados semi-cerrados a meia haste cheios húmidos a pestanejar é urgente a pausa de dois segundos e meio em que o lábio de baixo descai e fraco implora é urgente a repetição os clichés que não o são a reiterar e a dar pontuação à segurança e à crença no timbre que me habitua é urgente o grace inteiro num era uma vez já outrora mil vezes idealizado e o antony num final espiritual apoteótico de quem se quer é urgente perder a conta às pestanas porque a boca distrai os olhos é urgente a reciprocidade as duas palmas os passos que imitam as neuras que se cruzam é urgente o riso de coração de prolapso ansioso infantil pelos aviões que tardam nos céus é urgente o falsete que sai ao lado e não acompanha o tom yorke é urgente o lacre partido em dois é urgente o copo meio cheio a substituir o vazio é urgente os pacotes de açúcar que começam fábulas de quem põe açúcar no chá e no café contra os cânones de quem é especialmente cool e entendido e bebe puro é urgente o branco de que não se gosta de tão cândido e ainda assim faz brilhar a pele no mais bonito dos contrastes na mais bonita das peles que quase cega sem aviso prévio é urgente as mãos de fada que não se cansam é urgente o sinal redondo espelhado na cara que lembra nos segundos ausentes que tem um par para a valsa é urgente a ginja que leva ao toque é urgente que o tom tom abrace a eloise em silêncio e não salte do telhado porque o medo já vai longe é urgente continuar a rir com os críticos do público que entre oxímoros e presunções elitistas aproximam mal-dizentes é urgente a teimosia das madrugadas num levo-te não me levas levo-te não me levas vicioso é urgente as polaroids tiradas por tirar queimadas amarelas tremidas inesperadas guardadas é urgente a perfeição do ritual dos sinais vermelhos rotineiros é urgente a hora do bolo de sábado que vem a aquecer-me por antecipação é urgente a métrica dos corpos viciados sem fim à vista é urgente a claridade dos sons que ecoam horas depois nas paredes tingidas de um laranja testemunha ocular do que sobra e do que se desfez é urgente passar do rock à poesia de bancada de cozinha entre cascas de tangerina e acordar a tempo de ver o óscar de melhor actriz é urgente

Monday, February 16, 2009

corda vermelha

bound together with a piece of red rope



junto ao rio
no carril de ferro
no alcatrão e na
calçada teimosa
que nos guarda
a corda vermelha
arrasta as folhas de um passado
que o é de tão pretérito
e num rodopio
anseiam antes
pelos corpos a insistir
em respirações trocadas
porque o medo não rompe
agora que ela é vermelha
vermelha-sangue
para que o tempo não gangrene
o nosso outono cheyenne

canta ele
e com a força que não se
pode dizer
chega a atravessar
me o peito
em primeira mão.

em primeira mão.

Saturday, February 14, 2009

entre mes reins



a
data
é

pura
coincidência

Wednesday, January 28, 2009

shearwater

haja fogo por aqui




e se a chuva cai sem medo
no peito meio cheio
a distância de um palmo
pode ser o suficiente
para perder
o chão


e se aos vinte e dois se previa a morte de todo o romance, eis que shearwater vêm cantar-me ao ouvido

Monday, January 26, 2009

my little runaway

Del Shannon - Runaway

nostalgia



isto equivale à minha fase do dirty dancing. cronologicamente trocado bem sei, mas equivale.

intemporal de tão bom.
quando um homem de guitarra ainda punha tantas míudas aos saltos numa roda viva, viva as go-go dos anos sessenta.

é como se dançassem à volta da fogueira.

Sunday, January 25, 2009

vicky christina barcelona






a minha fase de relutância com o woody allen é esquecida no exacto segundo em que vejo o javier bardem de camisa vermelha e mais tarde de t-shirt pintalgada.
e se a relutância volta, rapidamente se desvanece.
o gaudi assiste ao furacão penélope e a uma vicky e uma christina, que têm muito com que alguém se identifique. ora sou uma , ora sou outra.
há dias em que perdoo o woody e faço as pazes.

nem que seja por ter posto a scarlet e a penélope aos beijos.
é i.moralmente assim tão fácil convencer-me outra vez.

Monday, January 19, 2009

joão aguardela

1969 - 2009



vi-o em pequena, ao lado da minha irmã.
a camisa de flanela dos anos noventa estava lá e uma beleza que a mim, criança, me apanhou.
a meio do vamos ao circo posso jurar que, qual marialva, ele beijou a míuda do acordeão e o meu coração acelerou.
sonhei com ele nessa noite.
fui gozada pela minha irmã.
rimos e cantámos o esta vida de marinheiro sem parar.
those were the days.

cresceu ele, cresci eu.
as festas de anos e arraiais aos saltos ficaram para trás.
voltei a ouvi-lo com a naifa e tornou-se constante banda sonora.
sorri quando soube que ele estava no baixo, entristeço-me hoje.
é infância que não volta.
descansa.

telefonei pra tokyo só pra te ouvir cantar
pensei que a tua voz me pudesse animar

Sunday, January 18, 2009

a noviça do glam rock

I got you babe.
purpurinas e ácidos. outro duo.




do movimento bamboleante de ancas do coro, a uma marianne faithfull em queda livre, cheia de classe e mais de substâncias, e menos virginal que a julie andrews na música no coração, junta-se um bowie-ziggy que ainda me é desconcertante.
isto torna-se viciante.


é dificil esquecer isto e voltar a olhar para o sonny e a cher enamorados.

Saturday, January 10, 2009

espuma negra

quantas guerras queres antes de fechar de vez a mão vazia da tua?

descobri força na noite para estancar
o pulsar do teu sangue
da ferida que não era minha
mas que ainda assim cicatrizei
agora
teimam em rebentar ondas de espuma negra
como os teus pulmões
sugam-me para dentro com palavras infantis e estupidamente
francesas de um amor que não o é de tão mordaz
sugam-me
logo eu que tenho tanta pena da virginia wolf
e lhe tirava as pedras do bolso
uma a uma dando-lhe razões para ficar
se não fossem as mesmas ondas de espuma negra
como os teus pulmões

pintaste bem o medo sem sair das linhas e sempre na mesma direcção
prudência pueril a tapar o sol com a peneira
era o fio
era o fio
era o fio
dizias
prendias a vontade e a faca na mão a ameaçar
cortar a pele em vez do fio

agora comes os lençóis enquanto gastas o meu nome e
sem maneiras queres repetir
me sem tirar os nós e os soluços primeiro
e os lençóis não são para comer
já te disse

Thursday, January 8, 2009

tourette's better version

não páro de cantar isto.
quando penso que já não canto mais, solto um oh oh, father lay me down involuntário e de pulmões cheios.
da gélida avenida da liberdade de hoje à cozinha a cheirar a torradas queimadas.

é o síndrome de tourette mais refinado que conheço.




I said oh oh, father lay me down
Down on this sunken ground

I said oh oh, Bessie Smith why do you hang your head so low?
I would die in heaven just to meet your soul

Friday, January 2, 2009

my rifle, pony and me

Rio Bravo



ontem na rtp2, o primeiro filme de 2009.

bom presságio, caso alguém duvide.
o filme com que se começa e acaba o ano dizem muito do ano que se avizinha.
digo eu.

e o dean martin a cantar é um duplo presságio.

Feathers: I thought you were never going to say it.
John T. Chance: Say what?
Feathers: That you love me.
John T. Chance: I said I'd arrest you.
Feathers: It means the same thing, you know that.


Wednesday, December 31, 2008

o otis chama-lhe resoluções de ano novo

o serge impõe-se.

Je suis venu te dire que je m'en vais

Sunday, December 28, 2008

a cohen o que é de cohen



Ele é Leonard Cohen.


é o livro que te quero ler quando formos velhos.




Your eyes come to me
under the perfect spikes
of imperishable eyelashes
Your mouth living
on French words
and the soft ashes of your make-up
Only with you
I did not imitate myself
only with you
I asked for nothing
your long long fingers
deciphering your hair
your lace blouse
borrowed from a photographer
the bathroom lights
flashing on your new red fingernails
your tall legs at attention
as I watch you from my bed
while you brush dew
from the mirror
to work behind the enemy lines
of your masterpiece
Come to me if you grow old
come to me if you need coffee


Leonard Cohen, em Filhos da Neve

Saturday, December 27, 2008

leve como uma pena

Bobby Green: Oh man. This shit is making me feel light as a feather.

Não é de todo má ideia ir pondo as prendinhas de natal aqui em destaque e em merecida exploração e divulgação. recebi um dos melhores filmes do ano acompanhado do vinil de 79 do heart of glass. dois em um, há natais assim.

o We Own The Night, de James Gray, está assente na lista dos melhores do ano, tanto de gente de quem sabe da coisa e faz top ten's, como de uma prosaica e reles amante de cinema como eu (atenção, amante de classe, com direito a um belo quarto de motel.)
só aqui não ponho a opening scene, das melhores do ano também, com a heart of glass no fundo, porque a este canto ainda lhe resta algum pudor, mesmo que varrido para os cantos e tapado com o napron.
contenho-me para não fazer as já minhas famosas odes ao Joaquin Phoenix, a inflamabibilidade na luta interna do moço é bonita, e leva-me por arrasto em combustão.
nesta estória familiar seria pecado não falar no senhor Duvall, no três-mamilos-Mark Wahlberg, e na sensualidade da senhora Eva, mas é no Joaquin que o filme começa, é nele que se dá a explosão emocional e é nele que termina em jeito de redenção. vai do jingar com que desce as escadas da discoteca à intensidade com que se sai no drama para o qual é arrastado.





nota de redacção- enquanto isto foi escrito, senti-me tentada três vezes a pôr o clip da cena de abertura.
a heart of glass encaixa entre as pernas da eva e o terrível charme da cicatriz-pseudo-leporina do joaquin.
não pus, mesmo tentada.
o pudor é uma coisa terrível.

Wednesday, December 24, 2008

silent night

porque afinal é disto que se trata.






>>



Silent night, broken night
All is fallen when you take your flight
I found some hate for you
Just for show
You found some love for me
Thinking I'd go


Don't keep me from crying to sleep
Sleep in heavenly peace

Silent night, moonlit night
Nothing's changed
Nothing is right
I should be stronger than weeping alone
You should be weaker than sending me home
I can't stop you fighting to sleep
Sleep in heavenly peace

Sunday, December 21, 2008

hotel chevalier




os delírios quando se passa a fasquia dos 39º já deram melhores frutos e melhor ficção nacional, achei melhor pôr a secção dos filmes emprestados para devolver ainda este ano.

uma curta destas a fazer de era uma vez a uma história em que o cómico e o amargo-triste andam de mãos dadas, coisa refinada que o wes anderson vai conseguindo, é sempre um bom augúrio do que aí vem. e a natalie ajuda sempre.


Ex-girlfriend: Are you running away from me?
Jack: I thought I already did.


Ex-girlfriend: Whatever happens in the end, I don't wanna lose you as my friend.
Jack: I promise, I will never be your friend. No matter what. Ever.
Ex-girlfriend: If we fuck I'm gonna feel like shit tomorrow.
Jack: That's okay with me.
Ex-girlfriend: I love you. I never hurt you on purpose.
Jack: I don't care.

Jack: You wanna see my view of Paris?


eles não vão nada ter sempre paris.
é a ilusão das ilusões que me anda a ser cantada.

Saturday, December 20, 2008

guilty pleasures



ARLENE: Oh, you’re stuck with a dateless wonder.

PAM: I like the sound of that. What’s that?

ARLENE: A dateless wonder is a guy who thinks about girls a lot but doesn’t have much social skills. So he doesn’t go out a lot. But he’s not like his geeky friends, or his fat friends, or his confused sexuality friends, he goes out…every once in a while. Every once in a while he gets the balls to ask a girl out. Now dateless wonders usually make it a point to ask girls out of their league. Since they don’t expect to get the date anyway, why not aim high. And every once in a while, they get their shit together long enough to get a pretty girl to say yes. And you’re that pretty girl.

Friday, December 19, 2008

consoada do panque-roque

ontem foi assim



e eram mais que as mães.



o natal chegou mais cedo e só tenho que agradecer por isso.


e ainda hei-de descobrir como é que aqueles dois cromos-embriagados ao meu lado no concerto, sim é o termo simpático, acabaram o concerto lá atrás no palco armados em vedetas. ou groupies. ou qualquer coisa com muito álcool. pergunto à central de informações?

Monday, December 15, 2008

a guerra fria e eu de lábios pintados

cause our loves' become selling secrets to the Russians, they don't need, the cold war is on between you and me

na boca dela o bâton vermelho misturava-se com o álcool e as palavras saíam enroladas com a língua a querer protagonismo. ainda assim o bâton lá estava como prova viva de que ela estava teatralmente bem para o mundo ver.
o verniz topa-se logo, não engana. quando a alma lasca, nem que seja por segundos e os olhos se enchem, reflecte-se nas unhas logo, tiro e queda. lascam, devagar. uma por uma. do mindinho para o polegar porque é ele o mais próximo do coração e dorme as noites frias sozinho dentro da mão.
falange. falanginha. falangeta. queria que me tomasses os dedos assim, e que me chegasses ao polegar sem pressa. numa cantilena pueril e sem te importares com o verniz lascado, tão sintoma do que fizeste.

o bâton vermelho destaca-me das outras, convenço-me. não é nada um lugar-comum, cala-te.
o vermelho não é igual, nem difere pelas marcas finas ou dos chineses da rua do jardim. é vermelho, mordendo ou não o lábio de baixo, falando muito e muito alto enquanto se dança ou a falar muito perto de alguém e a deixar marcas no copo alto de cerveja, o vermelho muda durante uma noite inteira.
passa por mil amores e não passa ainda e só de vermelho.

vermelho-beija-me. há vermelho-apazigua-me. há vermelho-excitante. há-vermelho-clássico. há vermelho-provocador. há vermelho-sozinho. há vermelho-sangue. há vermelho-toma-me. há vermelho-a-dois. há vermelho-de-amigas. e há vermelho-mau.
vermelho, vermelho. vermelho. logo eu que também não percebo as cores complementares.
na outra noite no metro,uma menina disse a outra : ' ela tem os lábios vermelhos, não são cor-de-pele como os nossos, também quero.' ouvi, e inevitavelmente sorri, porque aos quatro anos mal elas sabem que era vermelho-mau. e quis esborratar-me de seguida mas não as quis desiludir em plena carruagem e fazê-las conhecer o joker-do-amor cedo de mais.


he said "sew up the bad that you done, tomorrow christmas day comes."


a ânsia de te ver é pior que a minha antiga véspera de natal, em que era a última em dez, a abrir as prendas. irrequieta e de olhos arregalados, chata e esperançosa. não, espera. não quero que seja esta ânsia, esta é boa. esta é boa. porra.
esta é calor da lareira, abraços e pressa, muita pressa. nada de noites mal dormidas e comprimidos a mais.
nunca soube fazer comparações, sou menina de hipérboles que me tramam e abusam do meu sono. atam-no à cama e obrigam-no aos maiores disparates. e os eufemismos, esses, perseguem-me e fazem-me ver-te ainda de vestes bonitas. o rei vai nu. o rei vai nu.

diz o mexia que diz céline, que ' O amor é o infinito ao alcance dos caniches ' e adormeço com isto, que o natal está a porta não tarda, as unhas precisam de ser retocadas e a bandeira branca de paz precisa de ser erguida aqui na janela do primeiro andar, antes que o vermelho desapareça de uma vez por todas.



cry in to your christmas cake
dont know what else to do
the new year is right in front of you

Sunday, December 14, 2008

senhor mexia é que sabia- take II

Eu devia ter tido mais juízo

(...)

"I Should Have Known Better" (Jim Diamond) é a mentalidade masculina em quatro minutos e 12 segundos. Ele traiu a mulher que, segundo diz, amava. E no entanto, tirando as lágrimas e as desculpas, ainda diz asneiras e mais asneiras. Coisas como «dei umas voltas» (o indispensável eufemismo sexual).
Coisas como «pensei que percebias» (pensei que percebias que os homens são inevitavelmente infiéis, vem nos genes e tal). Coisas como «não devia ter mentido a alguém tão bonito» (se ela fosse um trambolho não havia mal).
Coisas como «agora és tu que me magoas» (como se virar costas a quem nos traiu fosse tão mau como trair alguém).
Dá ideia que o «eu devia ter sido mais sensato» do título não é arrependimento honesto: é apenas um fulano em estado de necessidade. Um fulano que não ganhou um pingo de maturidade com a experiência.
Quando eu era puto, em 1984, ouvia esta canção e tinha pena dele. Queria que ela voltasse.
Hoje ouço de novo e acho que ele foi um canalha. E não quero que ela volte.
Quando era puto, achei que ele soltava aquele estranho «ai ai ai», como em português fazemos quando nos magoamos. Hoje, sei que ele diz «eu eu eu», como um homem patético. Passe a redundância.

Pedro Mexia, in Nada de Melancolia

Friday, December 12, 2008

bettie mae page

1923 - 2008

rainha das pin-ups. hailed from tennessee.

não há dita von teese que agora safe isto.




I was never the girl next door.

Tuesday, December 9, 2008

hope




manda-me flores do teu dezembro.

Thursday, December 4, 2008

amour fou pós-68



a fronteira do amanhecer e o ciclo do eterno retorno

pai e filho cruzam-se ao espelho.
um lembra o outro da felicidade a preto e branco da nova onda francesa que o filho não viveu, numa lição cinéfilo-paternal, oscilando na linha do facilmente parodiado.
um avisa o outro dos perigos de amar tardiamente e sem volta a dar e do gin em horas más e longas.
é o pai a dar o derradeiro lema de vida ao filho, já que a cabeça se irá ressentir quando a pele for outra. a cabeça ressente-se literalmente com aparições sob prazo expirado e os negativos saem queimados com a beleza do que já não é. e o amor são duas lentes.
a angústia de não querer um amor burguês leva garrel ao seu maio de 68 outra vez, sem armas e sem uma única gota de sangue.
a femme fatale carole e o seu mamilo, ousa ser a diva das tragédias de outrora, e de tão perdida e desesperadamente bonita suga a lente. até no além precisa dele e quer que ele a leve ao colo. é a dependência a preto-e-branco num espelho francês.
o amor esse está na camisa branca e na classe dos caracóis do garrel.




Nós somos as pessoas que dormem.
As que fazem história são muito mais numerosas.

Friday, November 28, 2008

laisse-toi aller et n’ai pas peur

ou ' as romãs - pomegranates - têm prazo '


volto ao asfalto. sei quando olho para os meus phones. os fios hão-de estar eternamente embrulhados e com demasiados nós-cegos. mas têm fases piores e esta é a época das romãs e das mãos frias vazias.
voltei.
desta vez juro que é a última. desta vez juro que é a última. desta vez juro que é a última. desta vez juro que é a última. desta vez.

o muro de berlim só caiu uma vez, reza a história.


Laisse-toi aller et n'ai pas peur
Les mecs c'est des salauds
Mais peut-etre pas tous
Remplis ton verre et a nos amours
J'suis la pour ca





um aviãozinho militar
atirou uma bomba ao ar
em-que-ter-ra-foi-pa-rar?

Wednesday, November 19, 2008

sangue, a constituição de arguido e o saramago

lomoférias



por lá há-de estar o meu ego perdido aos saltos numa oktomat.
é ver para crer.

Thursday, November 13, 2008

o filho do pastor

esta hoje desceu devagarinho que nem línguas de fogo sobre mim



the only one who could ever reach me was the son of a preacher man
sweet-lovin son of a preacher man


há algo de muito errado na entoação luxuriosa com que me deparo a cantar isto.

Friday, November 7, 2008

two for the road

Mark Wallace: This is completely against my principles.
Joanna Wallace: Good. I hate to think that it happened all the time.
Mark Wallace: I had absolutely no intention of sleeping in hotels.





é uma polaroid admiravelmente honesta do casamento e mais uma vez com uma estilizada, deliciosa e genial Jo.

What kind of people just sit in a restaurant and don't say one word to each other?



as histórias de amor não têm obrigatoriamente de ser sinceras, podem oscilar entre apoteóticos beijos numa viagem ao sul de frança e insultos num íntimo clássico bitch - bastard ricochete de quem em seguida quer tomar os lábios do outro, e mesmo assim não serem sinceras.
são doze anos na vida de um casal, num esperançoso retorno aquilo que eram. e a sinceridade, às vezes dura e sarcástica está lá entre os lençóis.
a paixão aqui tende a desvanecer na primeira fila ao mesmo tempo que a necessidade de se impressionarem. e mesmo assim são um casal-íman. como poucos.
de jovens à boleia com o riso-do-amor a borbulhar, ao casal desesperadamente à procura do último fôlego para consertar a frieza agridoce com que se habituaram.
ora para a frente, ora para trás, num desconcertante passo de dança entre Audrey e Finney, a química está lá sempre e eu deste lado a desejar de pé juntos uma road trip tão íntima como esta, com beijos em st tropez, mesmo com inevitáveis bastards pelo meio e que tenha que ser eu a empurrar um MG ou um mercedes 300, desde que com o guarda-roupa desta senhora.


Mark Wallace: It's really meant for photographing three-dimensional objects.
Joanna Wallace: I'm three dimensional, as a matter of fact.

Wednesday, November 5, 2008

remember, remember the 5th of november



agora é aprender isto até sexta.

Saturday, November 1, 2008

o nº 65 é disco de reserva

bigode em bruto




gosto de sentir pele-de-galinha por ouvir alguém cantar ao vivo. é visceral o que estes senhores fizeram.
o timbre dele a poucos metros do meu que está mudo e quebrado.
levei companhia e senti-me uma miúda, contente a querer partilhar a descoberta, a levar testemunhas numa esperançosa conversão, ansiosa para ver a mesma admiração e radiante por lhes mostrar algo tão tão tão bom. ( vaidade pueril, admito sem pudor. )

acabou-se o armistício numa colina de lisboa e o nº65 funciona e vai tocando aqui, embrutecido.




isaac é o nome do meu avô.

Wednesday, October 29, 2008

love letters from a muthafucka



descaradamente tarantino.

não disfarçam, o que não é mau. são laivos de honestidade portuguesa.
o ivo canelas vai levar-me a tirar as teimas e quem sabe fazer as pazes com o cinema português. ( tenho graça eu ) não creio, mas já me puseram a cantarolar o love letters from a muthafucka .

Tuesday, October 28, 2008

a hora das bruxas vs morning theft

a cinemateca é a casa da gente.



E é então que chega o nevoeiro. O nevoeiro é um achado, porque cumpre ainda melhor as funções classicamente atribuídas à noite, à escuridão ou às sombras fugidias.
Sobretudo porque este nevoeiro não é uma neblina inócua, uma gaze que tapa os céus e obscurece a visão.

Carpenter sempre foi um cineasta bastante politizado, e The Fog lembra que o passado é uma história de violências e outras vergonhas.

E nunca nos libertamos do passado, como se vê pelos vestígios e destroços do navio que ainda dão à costa. Os fantasmas que vêm vingar as infâmias antigas são também esses founding fathers que os americanos mitificam, e que aqui regressam com intenções malévolas, entrevistos no meio do nevoeiro que os ajuda, sempre naquela «hora das bruxas» entre as zero e a 1 da manhã. E percebemos que eles nunca ficam saciados, porque haverá sempre fantasmas do passado que nos assombram.


Pedro Mexia

a hora das bruxas é lixada. seja lá onde for. é sempre sempre lixada.

ah, não és o d.sebastião e não trazes a esperança nas mãos. e mesmo assim apareceste numa manhã de nevoeiro e vento e sem cavalo branco. preferia que tivesses continuado lá por alcácer-quibir. look for the fog