Tuesday, June 16, 2009

bairro alto

ou o rapaz que aos trinta e três anos arranjou uma vespa verde







ele sai tarde, voa para longe e acorda cedo.
não consegue estar muito tempo sozinho entre paredes e prefere sempre as coxias. as paredes prendem-lhe as ânsias, mesmo que sejam com o mais bonito papel de parede.
sai tarde, voa para longe e acorda cedo. é querido por todos e não se esforça.
és desses. dos que nasceram com esse encanto e que mesmo ao fim de três décadas não são conscientes de o terem.
apanha a roupa, faz a mala, desliga o rádio, sai tarde e voa para longe.
o menino de três anos que mais parecem seis pela desenvoltura com que fala pelo bairro e se estica na varanda para ver tudo, gosta dele. gosta de o ver passar de carro, de vespa e a pé, e chamá-lo de amigo de sorriso rasgado, olhos pestanudos e ainda de fralda.
o menino que não sei o nome porque só lhe pergunto se já lanchou, observa-nos e volta a chamar-te de amigo. insiste mais uma vez - amigo. dás-lhe o teu sorriso mais bonito e é impossivel não achar verdadeiramente que és amigo dele. eu acredito. chego mesmo a acreditar que ele tem saudades tuas e passa a tarde a olhar para o terceiro andar do número cinco quando te ausentas.
gostava de saber o nome delas também. das velhotas do bairro, mas falta-me a tua simpatia. elas mereciam ser tratadas pelo nome e não só por velhotas, nem que seja pelos olhares ora ternurentos ora saudosistas-atrevidos que te lançam. dás-lhes atenção e falas do cabelo delas, da chuva que teima, e enches-lhes o dia. ai se eu fosse mais nova, borracho, leva-me contigo, repetem baixinho quando te afastas.
o olhar da que se senta no degrau a cantar toca-me mais. preferia ouvi-la cantar mais tempo do que à fadista em frente que nos é impingida. olha-te de cima a baixo, olha a miúda que vai contigo de mão dada. mais nova, a cachopa, pensa ela. será que nos ouve pela janela que nos esquecemos de fechar? não sei o que pensa mas sorri e gosta de ti. essas coisas não se disfarçam. muito menos uma velhota que canta a vida na solidão de um degrau.
fácil seria descrever o mundo feminino na tua área circundante da calçada que te sorri, mas por lá anda o senhor da mercearia que gosta de fazer uma piada quando te vê e te entrega o correio, ao da drogaria que me ofereceu pilhas, ao rapaz esquisito dos truques de magia que anda sozinho e por toda a parte com um baralho de cartas, ao que fala de futebol, nos convida para a bica e te pergunta se vais voar e já me estende a mão como se me visse já como parte integrante de ti, os turistas que acolhes e que ficam assim a conhecer o melhor do país num sinal de uma bochecha que os recebe, também eles contagiaste . és desses.
o bairro alto é a tua rua.
tudo o resto em redor ruiu e perdeu o nome.

o bairro alto é o teu sorriso que dele não sai.
nem quando dele sais tarde e voas para longe.

7 comments:

Z. said...

"No bairro do amor o tempo morre devagar
num cachimbo a rodar de mão em mão
no bairro do amor hã quem pergunte a sorrir
será que ainda ca estamos no fim do Verão

Eh pá, deixa-me abrir contigo
desabafar contigo
falar-te da minha solidão
Ah, é bom sorrir um pouco
descontrair um pouco
eu sei que tu compreendes bem"


Amo-te e o bairro alto só tem o meu sorriso quando a ele chego, quando a ele vais.

Tangerina said...

Os meu pombinhos :) Tenho saudades de ir ao bairro com vocês. E quero ver essa vespa!

Para ti Mad só digo: And when I get that feeling I want McChicken! :D *

Anonymous said...

Isto vai dar casamento. Ai vai, vai!
:D *

I. said...

Hoje pensei com a minha mãe no Bairo Alto e nessas ruas que nos levam com elas e cheiram a história.

ad said...

ainda estão frescas e de coração palpitante as velhotas ain?

Anonymous said...

Terno. Desde o Amelie que as vespas aterraram definitivamente no meu coração. Os rapazes que as conduzem merecem aquela palmadinha no ombro.

abssinto

Anonymous said...

Terno. Desde o Amelie que as vespas aterraram definitivamente no meu coração. Os rapazes que as conduzem merecem aquela palmadinha no ombro.

abssinto