Saturday, August 15, 2009

ponta delgada - toronto. em voo.

põe o dedo assim que a espuma já não sobe, amor.
acordei com essa frase, o postal do roy lichenstein sobre a mesa e os lábios fartos de cerveja da noite anterior e estupidamente carentes dos teus.
em voo. leio. está em voo, chega ao terminal 3 mais logo. serei a pior versão do big brother do espaço aéreo? em voo. em voo. controlo o estado do teu coração e do meu à distância e tenho uma visão turva da nossa corda vermelha pelos ares. em voo. acredito que és um vaivém como o quadro no passos manuel.
vaivém. és um vaivém, meu amor, mas só a segunda sílaba me conforta. a primeira lembra-me a todo o tempo a falta que me fazes. só com as duas juntas posso dar valor ao teu sorriso, a cada ritual nosso, a cada beijo como se fosse o primeiro na praça chuvosa. vaivém.
as ausências com calor são menos toleráveis porque durante a noite o pé teima em procurar o último intocável recanto fresco do lençol, nessa busca sonolenta chateia-se por não encontrar o teu. assim como me chateio por ainda não ter comido figos neste querido mês de agosto, logo eu que não falo muito em fruta.
o amola tesouras tem andado por aí, oiço-o do meu canto e sei que vai chover.
assim como sei que voltas para mim não tarda.






pergunta-me
se ainda és o meu fogo
se acendes ainda
o minuto de cinza
se despertas
a ave magoada
que se queda
na árvore do meu sangue

pergunta-me
se o vento não traz nada
se o vento tudo arrasta
se na quietude do lago
repousaram a fúria
e o tropel de mil cavalos

pergunta-me
se te voltarei a encontrar
de todas as vezes que me detive
junto das pontes enevoadas
e se eras tu
quem eu via
na infinita dispersão do meu ser
se eras tu
que reunias pedaços do meu poema
reconstruindo a folha rasgada
na minha mão descrente

qualquer coisa
pergunta-me qualquer coisa
uma tolice
um mistério indecifrável
simplesmente
para que eu saiba
que queres ainda saber
para que mesmo sem te responder
saibas o que te quero dizer

Mia Couto

10 comments:

ad said...

Os figos já foram, o amola tesouras passou por lá sábado, eu ainda a dormir, e o vaivém começa hoje, de comboio, coisa chique mas demorada*

Tangerina said...

Big brother do espaço aéreo, és tu e o meu pai, deviam trocar ideias sobre esse passatempo interessante de fazer refresh nas chegadas dos sites de certos aeroportos. ;) Tinha saudades das tuas palavras já que as minhas se foram, levaram-nas os comprimidos...
Temos de ir comer um crepe ao haggen dazs, um ritual q já não fazemos há muito...já sabes que sabor quero. Beijinho na ponta do nariz*

Anonymous said...
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C said...

:)

Tempus_Fugit said...

Excelente poema... De escrita quase directa e sem uma remota hipótese de soar ridículo.

Diabolous in Musicae said...

Retorno e ainda guardo o estupor pueril com tanta beleza...

(porque me esqueço de vir aqui mais vezes?)

Fosses tu outra e eu esse vaivem...

Anonymous said...
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Z. said...

"Se estivesses aqui, agora mesmo, seguramente estaria a violar os botões da tua roupa com os meus dedos ansiosos para tocar o teu corpo, aquecê-los na tua pele e misturá-los com o teu cheiro. Não estás, mas estou a imaginar-te. Retrato-te com vida, com movimento e palavras: as tuas obscenas insinuações, a tua desmedida imaginação sempre por detrás na língua." P.P

O vaivém que já voltou, já te abraçou e tocou, o vaivém que teima em partir e voltar como o próprio nome o designa, os caminhos sinuosos do ir torna mais belos e desesperantes os caminhos do retorno, a junção desses caminhos tornam tudo mais sólido e real, e durante algum tempo imagino-me a violar os botões da tua roupa como se estivesses aqui a meio dos dois percursos.

Hoje.amanhã.depois.amo-te.

Rita said...

cada vez que aqui venho o meu computador bloqueia. mas vale isso e muito mais. esse poema é um dos meus preferidos.

beijo

Sofia K. said...

vejo que continuas a escrever... ainda bem. eu gosto. beijos